19/10/2026
TE RA PI A...
É muito comum que as pessoas comecem suas primeiras sessões de psicoterapia pedindo desculpas. Desculpas por chorar diante da gente, às vezes tentando sair de "cena", como se a tristeza também precisasse de privacidade.
É comum pedirem desculpas por achar que estão “falando bobagem”. Desculpas por tomar tempo com algo que “nem é tão grave assim, você deve ouvir coisa muito pior”...
Esses pedidos dizem muito sobre quantas vezes essas pessoas falaram e não encontram espaço do outro lado para serem ouvidas.
Amigos e familiares também escutam, e isso tem enorme valor. Mas a escuta clínica, porém, é de outra natureza: É acolhedora, sem julgamentos, e tem muita técnica envolvida.
Na escuta qualif**ada, o psicólogo não tem nada a defender naquela história, nenhuma posição a tomar, nenhuma relação a preservar. E escuta com formação para isso: percebe a frase que se repete de sessão em sessão, a pausa antes de um nome, o episódio sempre contado pela metade, a palavra que muda de tom quando o assunto é a mãe ou o pai...
Escutar um paciente, nesse sentido, é sustentar o espaço sem disputar a fala, sem apressar o relato com um conselho, sem se assustar com o que o outro traz, e saber o momento exato de devolver à pessoa aquilo que ela disse sem perceber.
Uma história que nunca encontrou essa escuta tende a permanecer na versão em que foi registrada pela primeira vez, quase sempre a versão de quem a viveu sem recursos para entendê-la. Contá-la nesse espaço obriga a escolher palavras, ordenar acontecimentos e ouvir a si mesmo dizendo em voz alta o que até então era só sensação.
Quando o psicólogo aponta uma repetição ou uma contradição, a pessoa passa a ouvir também o que não sabia que estava dizendo. Nesse movimento, ela relê a própria história como quem volta a um livro lido na adolescência: o enredo é o mesmo, mas o leitor já não é. O castigo que parecia merecido se revela desproporcional para uma criança de sete anos, a mãe que parecia fria aparece exausta, a culpa carregada sozinha encontra outros responsáveis. Os fatos não mudam porque alguém os reescreveu. Mudam porque, pela primeira vez, foram lidos por inteiro. 🤎
Psi