23/06/2026
Um grande estudo observacional com mais de 10 mil mulheres avaliou a relação entre menopausa, terapia hormonal e hábitos de saúde como alimentação, atividade física e sono.
Os resultados mostraram que usuárias atuais ou prévias de terapia hormonal tendem a apresentar melhores indicadores de estilo de vida em comparação com não usuárias, incluindo maior probabilidade de atingir recomendações de sono, melhor padrão alimentar e maior engajamento com atividade física.
Mas o ponto mais importante não está apenas nos números, está na interpretação.
Esse tipo de resultado é fortemente influenciado por um fenômeno bem descrito na literatura científica: o viés da usuária saudável.
Na prática, mulheres que optam por terapia hormonal geralmente não diferem apenas pelo tratamento em si. Elas costumam ter maior acesso a serviços de saúde, maior letramento em saúde, mais engajamento com prevenção, maior adesão a hábitos saudáveis e, muitas vezes, melhores condições socioeconômicas.
Isso significa que parte dos “melhores resultados” atribuídos à terapia hormonal pode, na verdade, refletir o perfil dessas mulheres e não necessariamente um efeito direto do tratamento.
Esse viés ajuda a explicar por que estudos observacionais podem sugerir benefícios que não se confirmam quando analisados em ensaios clínicos randomizados, onde esses fatores são mais bem controlados.
Em ciência, associação não é sinônimo de causalidade, especialmente quando comportamento, acesso e escolhas de saúde estão profundamente entrelaçados.
SHILLITO et al. Menopause and hormone therapy in relation to dietary intake, physical activity, and sleep, and meeting lifestyle guidelines. Menopause, 2027.