11/10/2026
Notas sobre a Bienal de Veneza — Memória, identidade e reencontros
Há obras que nos impressionam pela sua dimensão estética, outras pela mensagem que transmitem. E há aquelas que nos tocam de forma particularmente pessoal, porque nos fazem regressar a experiências da nossa própria história.
Foi isso que senti ao entrar no Pavilhão Central dos Giardini e encontrar a extraordinária instalação Anatomy of the Magnolia Tree for Koyo Kouoh and Toni Morrison, de María Magdalena Campos-Pons.
Uma homenagem a duas mulheres negras de enorme relevância cultural: Toni Morrison, Prémio Nobel da Literatura, e Koyo Kouoh, curadora desta Bienal, falecida antes da inauguração. Os grandes painéis e as magnólias monumentais evocam memória, ancestralidade, resistência e solidariedade.
Esta instalação teve para mim um signif**ado especial. Dediquei a minha tese de mestrado à obra de Toni Morrison, mergulhando no universo da literatura afro-americana, que tanto me fascinou. Em 2001, tive a oportunidade de trocar breves palavras com a escritora numa conferência organizada pela Toni Morrison Society, no Ohio. Momentos que recordo com carinho.
Reencontrá-la, tantos anos depois, através da arte, foi também reencontrar uma parte da minha história.
Nesse mesmo espaço, outra artista me encantou particularmente: Beverly Buchanan. As suas representações das pequenas casas rurais do Sul dos Estados Unidos têm uma expressividade extraordinária. Há nelas uma aparente ingenuidade, quase infantil, que contrasta com a profundidade das histórias que transportam. Casas humildes que testemunham vidas, dificuldades, afetos, resistência e pertença.
E há o humor! A ironia, a irreverência e a capacidade de encontrar alegria mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Foi precisamente isso que tanto me cativou: a capacidade de olhar para uma história marcada pela dor e pela injustiça sem reduzir a experiência humana ao sofrimento.
Duas linguagens artísticas diferentes, mas que dão voz àquilo que a história tantas vezes procurou silenciar.
E foi também isso que esta Bienal me proporcionou: reencontros inesperados com partes da minha própria história, através da arte.
La Biennale di Venezia